Microbioma intestinal e saúde mental: como as bactérias do intestino podem influenciar o cérebro

A ciência tem investigado cada vez mais a relação entre o intestino e o cérebro. Estudos recentes sugerem que os trilhões de micro-organismos que vivem no corpo humano podem influenciar não apenas a saúde física, mas também o humor, o comportamento e até o desenvolvimento de doenças neurológicas.

Esse conjunto de micro-organismos é chamado de microbioma intestinal e tem sido considerado por pesquisadores como uma possível nova fronteira da medicina. Cientistas acreditam que compreender essa relação pode abrir caminhos para novos tratamentos para condições como depressão e doença de Parkinson.

Neste artigo, você vai entender o que é o microbioma, como ele influencia o cérebro e quais são as descobertas mais recentes sobre essa relação.

O que é o microbioma intestinal

O microbioma é o conjunto de micro-organismos que vivem no corpo humano, principalmente no intestino. Ele é composto por bactérias, vírus, fungos e outros micróbios que desempenham funções importantes para o organismo.

Pesquisas indicam que o corpo humano possui mais micróbios do que células humanas. Estima-se que apenas cerca de 43% das células presentes no organismo sejam realmente humanas. O restante faz parte do microbioma.

Por esse motivo, muitos cientistas se referem ao microbioma como um segundo genoma, pois ele também pode influenciar diversos processos biológicos.

Entre as funções do microbioma estão:

  • auxílio na digestão dos alimentos

  • produção de substâncias importantes para o organismo

  • fortalecimento do sistema imunológico

  • participação na comunicação entre intestino e cérebro

Como o intestino se comunica com o cérebro

A relação entre o intestino e o cérebro já é conhecida há muito tempo. Situações de estresse, ansiedade ou nervosismo podem provocar sintomas digestivos, como dor abdominal ou alteração no funcionamento intestinal.

Hoje os pesquisadores sabem que essa comunicação ocorre por meio do chamado eixo intestino-cérebro, um sistema de conexão que envolve o sistema nervoso, hormônios e substâncias produzidas pelas bactérias intestinais.

Esse processo funciona em duas direções:

  • o cérebro pode influenciar o funcionamento do intestino

  • o intestino também pode influenciar o funcionamento do cérebro

Essa descoberta abriu novas linhas de pesquisa para compreender como alterações no microbioma podem estar associadas a doenças neurológicas e psiquiátricas.

Estudos que relacionam microbioma e saúde mental

Uma das primeiras pesquisas que despertaram interesse nessa área foi realizada em 2004 por cientistas da Universidade de Kyushu, no Japão.

Nesse estudo, pesquisadores analisaram camundongos que cresceram em ambiente completamente estéril, sem contato com micróbios. Esses animais apresentaram níveis de hormônio do estresse duas vezes maiores do que camundongos normais quando expostos a situações de pressão.

Como os animais eram geneticamente semelhantes, os cientistas concluíram que a diferença estava relacionada à ausência de micro-organismos no organismo.

Esse resultado abriu caminho para novos estudos que investigam o papel das bactérias intestinais no comportamento e na saúde mental.

Microbioma e depressão

Pesquisadores também começaram a investigar possíveis relações entre o microbioma intestinal e transtornos como a depressão.

Estudos indicam que pessoas com depressão podem apresentar menor diversidade de bactérias no intestino quando comparadas a indivíduos saudáveis.

Um microbioma saudável costuma apresentar grande variedade de espécies bacterianas, o que contribui para o equilíbrio do organismo.

Além disso, fatores relacionados ao estilo de vida podem impactar diretamente a saúde do microbioma, como:

  • alimentação pobre em fibras

  • consumo excessivo de alimentos ultraprocessados

  • uso frequente de antibióticos

  • estresse crônico

Esses fatores podem alterar a composição das bactérias intestinais e possivelmente influenciar processos relacionados ao humor e ao comportamento.

Experimentos com transplante de microbiota

Alguns experimentos científicos buscaram entender melhor essa relação utilizando um procedimento chamado transplante de microbiota fecal.

Nesse método, o microbioma intestinal de um indivíduo é transferido para outro organismo para avaliar os efeitos dessa mudança.

Pesquisas realizadas com animais mostraram resultados surpreendentes. Quando ratos receberam microbiota de pacientes com depressão, passaram a apresentar comportamentos semelhantes aos associados ao transtorno.

Entre esses comportamentos estava a anedonia, que é a perda de interesse ou prazer em atividades que normalmente seriam agradáveis.

Esse tipo de resultado sugere que as bactérias intestinais podem influenciar processos ligados ao humor.

Microbioma e doença de Parkinson

Outra área de estudo envolve a relação entre o microbioma intestinal e doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson.

Essa condição afeta o sistema nervoso e provoca sintomas como tremores, rigidez muscular e dificuldades motoras.

Pesquisas indicam que pessoas com Parkinson podem apresentar diferenças importantes na composição das bactérias intestinais quando comparadas a indivíduos sem a doença.

Em estudos com animais geneticamente programados para desenvolver Parkinson, a presença de determinadas bactérias intestinais foi associada ao agravamento dos sintomas.

Quando o microbioma de pacientes com Parkinson foi transplantado para ratos, os animais desenvolveram sintomas mais intensos da doença.

Esses resultados reforçam a hipótese de que o intestino pode desempenhar um papel importante no desenvolvimento ou progressão da condição.

O que são psicobióticos

A partir dessas descobertas, surgiu um novo conceito na medicina chamado psicobióticos.

Psicobióticos são micro-organismos que podem trazer benefícios para a saúde mental quando ingeridos em quantidades adequadas.

Na prática, eles funcionariam de forma semelhante aos probióticos tradicionais, mas com foco específico na comunicação entre intestino e cérebro.

Embora o campo ainda esteja em desenvolvimento, pesquisadores acreditam que no futuro esses micro-organismos poderão ser utilizados como parte do tratamento de condições como:

  • depressão

  • ansiedade

  • doenças neurodegenerativas

Fatores que influenciam o microbioma intestinal

O microbioma humano é extremamente sensível a diversos fatores do dia a dia.

Entre os principais elementos que influenciam sua composição estão:

Fator | Impacto no microbioma
Alimentação | Dietas ricas em fibras favorecem bactérias benéficas
Medicamentos | Antibióticos podem reduzir a diversidade bacteriana
Ambiente | Contato com animais e natureza aumenta a diversidade microbiana
Forma de nascimento | Parto normal ou cesariana influenciam as primeiras bactérias do bebê

Essas mudanças mostram como o microbioma pode se transformar ao longo da vida, influenciando diferentes aspectos da saúde.

O futuro da medicina personalizada

Apesar dos avanços, especialistas ressaltam que ainda são necessários estudos maiores para entender exatamente quais espécies de bactérias influenciam o cérebro e de que maneira isso acontece.

Mesmo assim, muitos cientistas acreditam que o microbioma poderá se tornar uma ferramenta importante para a medicina personalizada no futuro.

A expectativa é que exames capazes de avaliar a composição do microbioma intestinal possam ajudar médicos a identificar riscos de doenças e indicar tratamentos mais específicos para cada paciente.

Com isso, o estudo do microbioma pode transformar a forma como diversas condições de saúde são prevenidas e tratadas.

Fonte: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/como-as-bacterias-que-voce-carrega-podem-estar-afetando-eu-estado-de-espirito.ghtml